As concepções sobre a ideologia do PT na prática e se suas aproximações com regimes fechados influenciaram durante os 14 anos em que o partido esteve representado no poder, são assuntos quentes hoje em dia. Fez frente aos “flashs” esquerdistas do partido dos trabalhadores, a suposta identificação dos seus partidários com uma organização secreta que tinha como objetivo implantar o comunismo no Brasil, ou algo semelhante à vizinha Venezuela. Em meio a fragilidade de tais discursos, torna-se desnecessário cansar o leitor com argumentos que visam o mero desmonte de teorias conspiratórias; não é o intuito aqui.   O problema que surge, no entanto, vai de encontro ao real papel ideológico do partido no poder: desde seu natural distanciamento de sua agenda ideológica raiz, à sua aproximação com uma matiz social-democrata no primeiro governo Lula até ao rompimento com uma agenda desenvolvimentista e início de um caos econômico.

 A discussão até considera as falas petistas e antipetistas – aos que defendem os 14 anos de PT no poder como uma real manifestação da esquerda, e dos que identificam o governo petista como sendo uma faceta do comunismo.  Entre outras coisas, não se pretende discutir as raízes políticas e ideológicas na fundação do PT.  O ponto central incide no período em que o lulo-petismo esteve no poder e nos seus desdobramentos no cenário econômico, político e principalmente no impacto na elaboração de narrativas pelos partidários e pela a oposição, já que ambos os grupos enxergam no famigerado partido o objeto de seu fascínio.  

Há, ao menos, duas falas que partem diretamente do representante do atual poder executivo – ou dos que o circundam – e elas poderiam ser as razões destas linhas. Em primeiro lugar, o discurso vencedor das eleições e que reverberou na fala do suposto teor comunista do PT. Tal conclusão, compartilhada pelo atual presidente, revela a mesquinhes racional em plena manifestação. Ora, não é difícil entender as peculiaridades de regimes que adotaram algo similar às propostas comunistas, sendo impossível uma comparação com os anos de governo do PT. Alias, acerca das possibilidades de golpe comunista – como defendiam os que hoje estão na situação – a mera estratégia política, junto da tendenciosa visão da realidade, fortaleceu o teatro armado.

   Se não bastasse os ruídos e estragos da primeira fala, ecoou a segunda fala e com ela os seus dilemas agudos. Já no poder, o discurso da situação deu uma considerável recuada. É verdade. Mas, ainda é insuficiente para explicar o que foi, ideologicamente, o PT no poder. A fala foi do então ministro da economia, Paulo Guedes, que considerou o governo petista como uma representação fiel do regime social-democrata, entendendo se tratar de “um mal que deve ser extirpado”. Resta saber até que ponto os 14 anos em que o PT esteve no poder representaram tão ativamente o referido regime e o sistema famoso do pós-guerra que reestruturou uma Europa devastada pela Segunda Guerra, conforme o historiador Tony Judt.

Sabendo que os regimes da social-democracia, dos países escandinavos e em países como Alemanha, França e Holanda, se baseiam em uma espécie de contrato entre o Estado e a sociedade – esta última pagando impostos e esperando do Estado políticas públicas e de bem estar-social; não é difícil, neste aspecto, querer enquadrar o governo PT em tal agenda. No entanto, fora de uma análise simplista, verifica-se um distanciamento dos governos de Lula e Dilma da plena agenda social-democrata, mesmo que esse afastamento não os conduzisse aos caminhos comunistas como destoam as opiniões da oposição. De todo modo, em uma visão macro do petismo no poder, o que se verifica são fortes “lampejos de esquerda”, ainda incapazes para um genuíno enquadramento social-democrata como nos países europeus.

Não obstante, é notório nos primeiros anos do governo Lula os sinais para uma proposta de Estado de bem-estar social e políticas públicas ativas e ORGANIZADAS. Economistas do governo neste período testemunharam os interesses do então presidente e seu anseio pela diminuição da desigualdade social e os rumos tomados neste sentido. A ideia de criar um programa de assistência aos mais pobres, encorpando os “bolsas” da era FHC, junto aos bons sinais da economia, encaminhava o país para o grupo dos países desenvolvidos. Ademais, a popularidade do líder máximo do país, a fome deixando de ser um problema insolúvel e a disparidade entre ricos e pobres diminuindo, mostravam um Brasil distante da onda Neoliberal. Nesse cenário abandonado logo após a metade do segundo mandato do presidente Lula, uma questão insiste sem resposta:  como tão rápido o PT se distanciou dos bons e frutífero rumos e seguiu um caminho difícil de definir ou situar, embora a conquista social tenha ainda despontado significativamente nos anos posteriores?

Dever-se-ia tentar achar uma resposta para uma questão complexa, sem jamais encerrar as discussões e os seus prováveis desdobramentos. De todo modo, identificar os “lampejos” de esquerda (bons e eficientes) do PT não é tarefa difícil, bem como apontar os diversos aspectos que afastam o governo petista da essência social-democrata.  

Sem esquecer a peculiaridade do regime de bem-estar social que não é concorrente do sistema econômico capitalista – a integração de políticas públicas em dialogo com uma economia saudável e que gere riqueza dentro dos parâmetros éticos e morais levando em consideração os limites impostos pelo Estado. Deste modo, nem o Estado pode atrofiar a economia, permitindo diversas regalias e cedendo às pressões de grupos e seus favorecimentos, e nem deve deixá-la sem rédeas e desregulamentada. Eis aí a balança que o PT não conseguiu equilibrar.

Além de não atender as necessidades econômicas para o florescimento industrial e para a não a estagnação da economia, sobretudo no governo Dilma, diante das pressões e ao anseio de agradar a “todo mundo” que exigia vantagens e “compensações” que fogem da proposta original social-democrata, o governo foi sendo incapaz de contornar o problema econômico e ele foi se tornando forte, culminando no fechamento de muitas indústrias  e em um alarmante número de desempregados. Junte-se a isso o aparente adiamento do governo por reformas necessárias, não seguindo o exemplo dos países que já reformavam seus sistemas previdenciários e tributais. Foi persistindo nesse distinto caminho que os primeiros dilemas econômicos eclodiram e resultaram na era do medo em que comprar e vender se tornou um impasse.

Ao sair dos eixos iniciais, o governo ainda dificultou o andar da economia e não seguiu modelo de Estado bem-estar social como apontado por Guedes – em todos os regimes onde essas políticas continuam ativas, a economia segue seu curso tendo sempre a pontual interferência estatal e a disparidade entre ricos e pobres não é exorbitante.  Embora ainda levasse à frente políticas populistas, a desorganização dos planos de assistência, como o Minha Casa Minha Vida, que oferecia moradia sob burocracia exagerada e não contemplava boa parte de famílias carentes; a ausência de clareza sobre as políticas de distribuição do programa bolsa-família, bem como a não atualização da tabela de impostos  que exigiu mais impostos do cidadão mais pobre,  colocam em dúvida a plena esquerda da era PT. Em resumo, num regime cuja característica máxima é a diminuição da desigualdade, sob séria cobrança de quem tem mais propriedade privada, o governo PT passou longe de um regime social-democrata. Um dado levantado pela consultoria Mercer no final de 2018 mostrou a diferença de 34 vezes entre a renda de um operário e um empregador no Brasil, enquanto que na Alemanha, um país onde a social-democracia é reconhecida, essa diferença cai para cinco vezes.

Enfim, quando se fala que o PT foi um governo de esquerda — a antessala do discurso da situação — deve-se considerar os fatos expostos e refletir sobre os reais impactos de uma ideologia política na prática. Assim sendo, apontar o governo de Lula e Dilma como um regime de bons lampejos de esquerda, suficientes para mudar a vida de muitos garotos e encerrar a era duvidosa de FHC, é usar da racionalidade.

 Ao que apontam os fatos, é pensar pequeno tentar achar um meio termo para os embates entre petistas e não petistas e não considerar os caminhos tomados pela atuação gestão tendo em vista a solução da profunda crise política e econômica. Se a carruagem continuar seguindo os rumos que segue, será cada vez mais difícil imaginar um Brasil menos desigual – prioridade em um regime de centro-esquerda.  Se a crise começou quando o país se perdeu da agenda desenvolvimentista do Estado de Bem-estar social, será difícil encontrar uma solução possível que leve em conta os mais pobres sem uma agenda social-democrata.

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