Época de crise, preocupante e de pouca sensibilidade para com o sólido conhecimento estabelecido a um bom tempo. O avanço das forças extremistas é uma realidade atual no mundo e a cada dia ganha novas dimensões, implicando em sede por poder e aliando sob o conjunto de suas ideias, medida e propostas pouco amistosas aos princípios democráticos. O objetivo proposto aqui não se insere na análise dos governos com tendência autoritária, mas discutir as falas engajadas politicamente de grupos extremistas que recebem apoio de lideranças políticas. Pretende-se selecionar algumas polêmicas que giram em torno da natureza ideológica do nazismo, buscando apontar as principais evidências e mostrar o quanto sua manifestação não pode representar um versão de socialismo. De antemão, é pertinente entender o movimento político encabeçado pela alta cúpula do governo brasileiro como conservador, embora também se pauta em visões reducionistas, falas antiacadêmicas e em ataques contra as instituições públicas históricas, deixando até mesmo alguns grupos conservadores assustados com o provável distanciamento dos atos realizados pelo governo dos ideais conservadores clássicos.

Para o atual ministro da relações exteriores, Ernesto Araújo, não há dúvida: “o nazismo foi um fenômeno de esquerda”. Essa percepção nada mais é que uma tendência não muito nova de jornalistas direitistas na insistência de que Hitler e o seu partido não se posicionam no espectro político da extrema-direta. Esses grupos justificam suas compreensões deturpadas acerca do socialismo e das ideias progressistas como um todo, dentro de uma lógica rasa e de pouco fundamento. Creio que o erro para tal compreensão começa na base da conceituação desses termos políticos: a errônea análise que aborda os termos direita e esquerda sem considerar as influências que exercem o contexto e o período histórico para as distinções das posições no quadrante político, gera grande mal entendido. No meio acadêmico há um consenso que compreende a atual definição de esquerda e direita como distante, em alguns aspectos, das definições que nasceram com a Revolução Francesa, por se tratar de épocas distintas. Há também as interferências contextuais e regionais que alteram as definições. Entende-se que os partidos considerados do espectro político da direita ou da esquerda no Brasil podem ganhar novas representações se trasnferidos para o contexto dos EUA e de alguns países da Europa. Outrossim, a própria forma como se utilizam os termos em discussões, denotados sempre com singularidade,- como se houvesse apenas uma vertente de direita e de esquerda – soma-se à incompleta compreensão e implica na análise deturpada de um dado objeto e sua posição política e ideológica. Talvez seja o caso de quem defende o nazismo como uma forma de socialismo.

Adolf Hitler (1989-1945) sendo recebido por apoiadores em Nuremberg. em 1933

A versão dos livros chamados de “politicamente incorretos” que reivindicam autoridade sobre certos temas da História Geral e do Brasil cometem falhas infantis, amadoras e são um dos responsáveis na formulação incongruente do nazismo como manifestação esquerdista. Eles destacam o uso do termo socialismo na sigla do partido de Hitler como crucial para definir a sua natureza ideológica, e se negam a considerar o contexto alemão e as verdadeiras raízes do nazismo. Um dos cabeças dessas ideias é o jornalista Leandro Narlock, para quem, o socialismo e o Nacional-Socialismo de Hitler “são gêmeos brigões” que têm, portanto, a mesma raiz ideológica. Ainda segundo essa lógica um tanto estranha, outros elementos podem “empurrar” o partido nazista para o socialismo. Leia-se: a cor vermelha da bandeira do partido, o espirito antiliberal de Hitler, o estilo eloquente do ditador,- visto com frequência em líderes social-democratas da época-, e o tom revolucionário do movimento Nacional-Socialista, corroboram para a tese do provável erro histórico dos pesquisadores em suas análises do Nazismo como intrínseco à extrema-direita.

Contudo, nem tudo o que parece é. Os elementos que posicionam o partido de Hitler no seu devido lugar, ou seja, na extrema-direita, são inegáveis e colocam os defensores do contrário em posição desfavorável. Me explico: uma breve leitura de poucos tópicos do Mein Kampf, a biografia de Hitler, mostra as reais intenções do Fuhrer com o seu aparente estilo socialista. Um pouco antes da Primeira Guerra Mundial, o movimento Social-Democrata da Alemanhã causou um impacto mundial com suas ideias, conforme a análise do historiador Richard J. Evans. Muitos trabalhadores aderiram as causas esquerdistas em virtude do crescimento desse movimento político, levando Hitler a pensar arraigado às tendências antigas do socialismo e as que surgiam a sua volta. Aliado a esse contexto, a quebra da bolsa de valores de New York em 1929 deixou muitos países em dúvida em relação ao sistema capitalista – induzindo liderenças a buscarem outras propostas politicas e econômicas para seus Estados. Junte-se a isso o antissemistismo com contribuição considerável para o antiliberalismo dos alemães. Diante de tal cenário, restou a Hitler plagiar certos elementos do Socialismo afim de conseguir apoio incondicional “das massas” e pôr em prática seus planos de dominação.

Dentro de uma proposta ousada, saiu na frente quem conquistou o apoio dos trabalhadores e mostrou autonomia sob a onda da “política de massa” tão comum na época. Eis a jogada do Fuhrer. Toda a estratégia foi configurada levando como marca a cor vermelha na bandeira do partido, a eloquência nos discursos do líder e a substituição da palavra partido por “movimento” nacionalista dos trabalhadores alemães. A intenção era plagiar a forte tendência socialista do período e com isso irritar os inimigos do partido nazista. Em Mein Kamp Hitler falou que para irritar os seus adversários, “adotamos, de começo, a denominação de Partido para o nosso movimento, que tomou o nome de Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães […] A cor que escolhemos foi a vermelha, não só porque chama mais atenção, como porque, provavelmente, irritaria nossos adversários, e faria com que eles se impressionassem conosco”. Como se percebe, Hitler seguia cegamente uma estratégia, sem nenhum apreço aos reais princípios socialistas. Se de fato havia objeção aos ideias liberais, já que os judeus eram os grandes proprietários e quem movimentavam o capital, por outro lado, todos os ideais do Bolchevismo e do Marxismo lembravam os judeus e eram portanto odiados por quem aderia ao “movimento” Nacional-Socialista.

Creio que o antisemitismo e a crença na raça ariana é que selam a distinção dos ideais do Nazimo dos princípios socialistas. Se estava claro os objetivos ideológicos de uma das vertentes da esquerda da Alemanha que diagnosticou a situção no pós Primeira Guerra Mundial e buscou como solução a revolução proletária, os males presentes na ótica do Nacional-Socialismo de Hitler só seriam extipados com a eliminação da raça inferior. Ou seja, verifica-se duas propostas totalmente distintas e com fins que não poderiam ser iguais. Assim, no que incide às raizes da verdadeira ideologia dos nazistas, vários historiadores alemães, entre eles Wulf Kansteiner da Universidade de Aarhus e Stefanie Schüler-Springorum da Universidade de Berlin, salientam que o nacionalismo racista,- que teve suas origens na negação conservadora dos ideais iluministas, impusionadores da Revolução Francesa( e que por sua vez influenciaram o pensamento progressista do ocidente) deram base para os princípios hitleristas. Não reconhecer isso é a mais pura desonestidade intelectual. Algo que o atual ministro da relações erxteriores e o atual presidente da República estão dispostos a demonstrar.

Ademais, basta compreender o contexto alemão logo após a unificação do império alemão sob a liderança importante de Otoo Von Bismarck e perceber como logo depois os ideais democráticos tiveram dificuldades em um terreno não fertil. O historiador Richard J. Evans destacou como a “mão forte” de Bismarck impactou a população germânica, e como o poderio militar foi assumindo as rédeas em parceria direta com o poder do líder máximo em detrimento do legislativo. De tão marcante, a liderança de Bismarck causou nostalgia a ponto de atingir o auge com os problemas mal resolvidos pós tratado de Versalhes, embora antes mesmo da Primeira Guerra parte dos alemães ainda considerasse estranha a convivência com minorias raciais no Reich criado. Evans ainda mostra como a Alemanha nacionalista, formada inicialmente por Bismarck, ajudou a configurar um modelo ideal para que um ditador ganhasse espaço posteriormente; algo semelhante ao que aconteceu na Itália no período da sua unificação sob a liderança do líder popular Garibaldi, o mesmo que preparou o terreno para Benito Mussoline.

Mas, se ainda é possível apontar o partido nazista como “manifestação da esquerda”, talvez seja devido a uma importante questão que ainda paira. Creio que dois pontos parecem verdadeiros. É indiscutível que Hitler em algum momento de sua carreira política foi anticapitalista e que o Estado alemão do Reich não era mínimo. Contudo, é óbvia a mudança na percepção de Hitler sobre o capitalismo e como o burguês da raça pura alemã não o incomodava. Junte-se a isso o grande apoio que ele recebeu de empresários sem os quais seria mais difícil pensar no seu sonho imperialista; e os judeus que prestaram serviços braçais em alguns campos de concentração e foram a moeda de troca para o apoio empresarial dado ao Reich. Inexoravelmente, as ideias macabras de Hitler jamais visavam o fim da propriedade privada e nem a proibição do capitalismo. Não se pode nem cogitar ao nazismo tais ideias. Em resumo, para os empreedimentos nacionalistas e imperialistas do Reich foi fundamental ao líder forte o controle do Estado, que não seria flexível com a liberdade comercial, mas não a impediria, sendo o ideal racial um pano de fundo determinate para a sua atuação.

Por fim, percebe-se como é difícil manter uma posição distinta da que foi apresentada e defendida ao longo deste ensaio em relação ao Nazismo e suas verdadeiras raízes ideológicas. Aponto principalmente como tragicômico as conclusões formadas a partir da sigla do partido sem qualquer análise que remeta as sua origens e a sua trajetória política. A despeito dos dilemas, o mais assustador ainda está por vir. Os livros didáticos ainda reproduzem o que consta na agenda do “Marxismo Cultural” e portanto ainda “doutrinam” as mentes dos adolescentes com o Nazismo de extrema-direita. Só resta a “ajuda” do governo que representa o único ente que ainda vê num mundo de repleta cegueira, segundo parece. Aos professores de História, com a agradável venda nos olhos, cabe buscar cotidianamente ressignificar os objetivos com o estudo da história, discuntido as origens do Nazismo e entendendo sua total configuração. Como inerente ao óbvio, se é velada ou “maquiada” as origens do inimigo, como impedir sua manifestação plena? Afinal, História pra quê?

Referências e dicas culturais:

ARENDT, Hannah. As Origens do Totalitarismo: anti-semitismo, instrumentode poder. Rio de Janeiro: Ed. Documentário, 1975.

BOBBIO, Norberto. Direita e esquerda: razões e significados de uma distinção política. 2. ed. São Paulo: Editora Unesp, 2001.

EVANS, Richard. A chegada do Terceiro Reich.São Paulo: Ed. Planeta, 2016.

Um comentário em “Nazismo e extrema-direita.

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