-Sem nenhuma intenção, a “chapeuzinho vermelho” deu pistas sobre o cotidiano do camponês francês do século XVI.

A simples menção aos contos populares já é suficiente para causar nostalgia em muitos leitores, ainda mais tratando-se das estórias clássicas contadas pelos pais aos filhos, dando seguimento ao movimento de repasse cultural que atua há séculos. Por serem construídos em narrativas breves, os detalhes do roteiro, dos personagens, bem como os desfechos dos contos, tendem a se fixar com certa facilidade na mentalidade dos leitores e entusiastas. Por outro lado, poucos leitores conhecem as origens das estórias que contam, do contexto vivido por aqueles que as criavam e não cogitam em considerar as possibilidades de se historicizar os personagens reais, apontando para as temáticas base das cantigas, lendas e dos contos populares. Definitivamente, perceber as entrelinhas sobre qualquer produção humana na história nem sempre é do interesse do leitor que prefere ler uma estória folclórica por mera diversão e satisfação. Para quem trabalha com a interpretação dos bastidores, compreendendo as falas por trás do conto popular como “um prato cheio” de manifestação humana, percebe a oportunidade para a construção de narrativas inteligíveis sobre o passado.

Detendo-se brevemente no contexto cultural brasileiro, é possível definir quais os modelos de contos populares mais fascinam o leitor atualmente, levando em conta o regionalismo e a miríade de personagens folclóricos criados pelos nossos antepassados. As diversas narrativas fictícias e até realistas em alguns aspectos, criadas ao longo do tempo e incluídas pelo imaginário popular, proporcionam o enriquecimento do nosso repertório cultural. Outrossim, aliado a um vasto número de personagens idealizados pelo povo ,- alguns até que se tornaram símbolos identitários regionais,- é inegavel o muito afeto aos contos de fora e a provável influência que eles exerceram em nossa cultura, por mais impactante que também seja o folclore brasileiro.

Partindo de uma análise macro, o elemento ficcional dado aos contos populares é um dos fatores que agrega impacto ao público leitor de modo geral: os personagens que se direnciam em meio a magia, como os duendes, fadas, gnomos e dentre outros, misturam-se no enredo e salientam sobretudo a realidade cotidiana de quem criou e contou as estórias pela primeira vez. Ademais, aliado ao tom de ficção, o incremento do “final feliz” permitiu, efetivamente, o “gran finale”, que se concretizou nas primeiras grandes modificações dos contos populares, já que nas suas origens no século XVI, em alguns países europeus, se caracterizavam pela abordagem realista da vida prática camponesa, já trazendo o diálogo entre os traços folclóricos e fictícios nos seus primeiros enredos. Levando-se em conta as características do conto popular nas suas origens, além dos demais elementos adicionados ao longo dos séculos, é sob as análises dos historiadores que as historietas reproduzem além o meramente narrado pelos velhos camponeses nas antigas cabanas. Porém, como parte do normal, há inúmeras questões que instigam os envolvidos na busca pela construção do fato histórico, da mesma forma que um crime não solucionado tira o sono do detetive Sherlock Holmes.

Creio, antes de qualquer análise bem elaborada, que as manifestações humanas como um todo não estão à deriva, elas certamente apontam para a possibilidade de compreensão da historicidade de quem as produzem. Assim, sendo prática humana, os contos não fogem das investigações do historiador, sendo inegável não perceber que os mitos, lendas e os contos especialmente, podem ser capazes de revelar muito sobre os sujeitos de um determinado tempo. É justamente nesse ensejo que se busca compreender, por meio das estórias populares, a ação do camponês da França durante o Antigo Regime, analisando a dinâmica do seu dia-a-dia. Em linhas gerais, sem querer “forçar a barra”, ou até mesmo obrigar a fonte,- que no caso é o conto-, a falar demais, este exércicio permitirá ao leitor um olhar diferente aos contos, pois o permitirá “enxergar” para além da narrativa: para um pouco do cotidiano dos que viviam sob o duro sistema francês do século XVI. Dentre os contos populares mais emblemáticos que corroboram nesse sentido, citamos: A bela adormecida, O gato de botas e Chapeuzinho Vermelho. Este último contemplado nesta análise.

Em rápido e eficiente desbruçar sobre o conto conhecido como “Chapeuzinho Vermelho”, há alguns pontos implícitos que ajudam a compreender a vida dura do camponês francês do século XVI( época em que o conto foi escrito). É provavel que o conto em sua atual versão não reproduza tão claramente o referido contexto em virtude das diversas versões e modificações que passou nos mais variados contextos por onde chegou. Para se ter uma ideia, o provável conto original, contado por camponeses nas cabanas, possui um final trágico e não há menção do chapéu vermelho da menina que levava comida para a casa da vovó. Percebe-se que esses elementos foram adicionados ao longo do tempo ao enredo e de um certo modo até podem contribuir na construção da mentalidade do camponês e do seu comportamento em meio ao duro cotidiano.

Em rápida busca nos “porões” da história, verificou-se que a versão mais próxima do atual conto Chapeuzinho Vermelho foi escrito pelos irmãos Grimm na Alemanha, estes provavelmente escutaram de uma vizinha descendente de uma família francesa hugonente que certamente imigrou para a Alemanha devido as perseguições na França na época do rei Luis XVI. Segundo os estudo do historiador francês Robert Darnton, nem mesmo a coletânia de contos levados pela família hugonente para a Alemanha foi recolhida diretamente do povo, mas do escritos de Charles Perrault, tendo recolhido da tradição oral do povo francês sem deixar de fazer algumas modificações. Ainda segundo Darnton, os contos adquiriram algumas pecualiaridades culturais conforme migravam para outros contextos europeus.

Analisando alguns elementos fundamentais da primeira versão do conto, três destaques presentes em Chapeuzinho Vermelho merecem atenção, sobretudo porque também aparecem em diversos contos populares da época. Como já mencionado, os contos passaram por influências culturais e isso resultava em novos elementos acrescentados aos enredos. Até mesmo a forma de escrita ganhava novos contornos para atender a um público mais culto da época. De todo modo, analisando a versão camponesa de Chaupeuzinho Vermelho, percebe-se a presença de algo muito desejado para o camponês da época, o pão. Aliás, segundo essa versão, o pão foi compartilhado com o outro, no caso, com a vovó – a primeira vítima do lobo, conforme os relatos. A menção ao bosque ou a florestas no percusso da menina até a casa da vovó merece atenção, pois representa um dos ambientes frequentados pelo camponês durante suas atividades produtiva. Destaca-se que era comum em muitos contos a escolha dos espaços dos camponeses para ambientação do enredo.

Seguindo na análise, o lobo faminto que destroça friamente a vovó e depois a pobre menina, evidencia a dura realidade da derrota do camponês. Este, faminto e com muito trabalho, era tragado precocemente pela morte. Além disso, a monotonia, na sua forma plena na vida do trabalhador simples, era determinada pelo sistema francês de exploração. Falar que o principal motor de funcionamento dessa ordem, aparentemente intocável, ligava-se ao trabalho de apenas um grupo não é exagero. Se há mesmo uma relação entre o enredo do conto e a vida prática do pobre trabalhador francês, por que escolheram contar tão incisivamente em narrativas trágicas? Há quem defenda que o contar estórias abordando temas do cotidiano com desfechos trágicos e às vezes com temas eróticos, era uma forma de descontração perante os desafios diários. Além disso, alguns contos apontavam alternativas para que o camponês buscasse burlar o sistema e torná-lo “cômico” de algum modo. Nessa lógica, se não há como afirmar que a tradição oral foi determinante para que eclodisse a Revolução Francesa de 1789, as estórias deram lições sobre a dura realidade da vida. Se para o contista não foi possível derrubar o sistema cruel, ele o enfrentou sem o levar à sério, buscando meios para retardar seu impacto ou até ridicularizar as investidas “do lobo mal”.( Há versões do conto Chapeuzinho Vermelho que terminam após o resgate da vovó e da menina por um lenhador, o que confirma a percepção de que o conto popular servia como forma de escape da realidade).

Se as estórias não ensinaram a fazer revolução, puderam ao menos, ensinar aos jovens sobre o que hoje chama-se “irreverência”. Ou malandragem mesmo. Enquanto os mais velhos do campo podiam passar para a próximas gerações as estratégias para se amenizar a dura realidade da vida, mostravam uma forma sutil de rebeldia contra o que é hegemônico. Além de fugirem do próprio real que às vezes se tornava vencível nas estória, viviam expectativas. Paralelo ao comportamento dos camponeses, a greve de 1857 na Bahia, na qual os escravos africanos associados à escravidao urbana mostraram atitude de resistência aos maus tratos dos senhores, demonstrou o grito do oprimido em prol da humanidade que lhes foi negada. Foi através da música, do canto, que os negros mostraram suas insastifações e construíram alternativas para burlar o sistema opressor. Por fim, depois de alguns séculos, o que chega para os leitores pode até representar meros contos de fadas com direito a final feliz emocionante,- o que também é fruto da mentalidade contemporânea – contudo, para quem pretende enxergar à fundo, sob as lentes de um historiador chato, o conto popular carrega há séculos o dia-a-dia de quem viveu debaixo da opressão e de quem percebia no ato de contar estórias uma forma de viver menos penosamente. De bônus, eles ainda desafiavam, ao seu modo, o sistema.

Referências e dicas culturais:

DARNTON, Robert. O grande massacre de gatos e outros episódios da história cultural francesa. São Paulo: Paz e Terra, 2015.

DE CERTEAU, Michel. A fábula mística: séculos XVI e XVII. Rio de Janeiro: Forense, 2015.

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