Dentre os vários acontecimentos recentes e de destaque no Brasil, está sem dúvida a grande guinada ocorrida no campo político que inexoravelmente traz um efeito singular ao páis, ao menos nos últimos 35 anos da história nacional – desde o fim do Regime Militar até ao atual governo de Jair Messias Bolsonaro. As Conclusões estabelecidas factualmente, sob o aparato de renomadas pesquisas científicas, estão sendo rejeitadas em consonância com estranhas perspectivas defendidas hoje pelo próprio governo. Debaixo do forte apelo anticientífico de alguns setores, a era que surge no país deixa em xeque análises históricas fidedignas e vira aos aversos concepções bem embasadas em favor de ideologias que se revelam a cada movimento dado pelo atual governo.

O cenário político o qual estamos vivenciando, revela, sobretudo, que o jogo de interesses está apenas começando e é fundamental que vários mecanismos coadunem em torno das novas tendências pró-governo para ser possível uma espécie de regeneração do conhecimento como se fosse não mais guiado por ideologia.(A quem querem enganar?) Em virtude destas metas agora verticais a partir do establishiment, um nova onda de interpretação de temáticas da História, principalmente, da área econômica, bem como da diversificada sociedade brasileira, rejeita conclusões coerentes do ponto de vista científico, apontando para outras narrativas tidas como verdadeiras e sem viés político. Assim, é no caminhar desta “limpeza conteudista”, como uma das meta do atual governo, que alguns ramos do conhecimento são identificados como imbecilizados pela visão política da esquerda e por se vincular a determinados métodos e institutos de pesquisa não aprovados pelo Estado.

As áreas mais atingidas por esses discursos pertecem às Ciencias Humanas. Há desdén e dúvida no muito já contribuído e produzido por pesquisadores destas áreas, além de clara desvalorização do pesquisador, que por ser filiado a alguma preferência ideológica ou ter posição política engajada, contribui para que versões distorcidas dos fatos sejam passados adiante e a “História da esquerda” seja a única conhecida. Grosso modo, o saber difundido sob forte influência política, como se acredita, implicou nas errôneas compreessões de algumas temáticas. Dentre as mais “corrompidas” pela “História da esquerda”, cita-se: Colonização, Brasil Colônia, Brasil Império e principalmente o Regime Militar, como temáticas da História Nacional; Fascismo, Nazismo e Guerra Fria, no âmbito das temáticas da História Geral. Dentre outras temáticas que se inserem nas áreas pertencentes à Ciências Humanas.

Abordando exclusivamente os dilemas da História, uma questão é pertinente: as análises históricas no Brasil realmente fogem do cunho científico ao adotar um lado político e, por isso, tais análises se constituem apenas por falas enviesadas politicamente, como defendem grupos ligados ao atual governo? Em resposta curta, direta, o trabalho feito pelos intelectuais e pesquisadores criticados hoje pela alta cúpula do governo apontam conclusões realistas dos acontecimentos. Isso tem incomodado profundamente. Em síntese, não há dúvida de que esses pesquisadores fazem Ciência. Desde Heródoto, a História passou por diversas fases e ganhou novas facetas, chegando ao caráter cientifico no século XIX, tendo algum impacto do positivismo. Ainda no contexto do boom científico, a escola historiografica Metódica deu ao pesquisador o papel da neutralidade, significava que ele apenas deveria organizava os fontes escritas produzidas por chefes de Estado e elaborar a História Nacional Oficial. A Guinada veio com a escola francesa dos Annales(1939), que tendo como principais expoentes Marc Bloc e Lucian Febve, representou a Revolução Francesa da historiografia, conforme Peter Burke. Após o movimento da escola francesa, o historiador passou a dialogar com a fonte histórica que também foi diversificada.

Atualmente não é possível exigir neutralidade do historiador que tem a consciência e o convívio social como partes indissociáveis de si. Querendo ou não, em diversos aspectos, as influências ao longo de sua trajetória são muitas, embora não seja o seu gosto pessoal que conceba um fato historico para favorecer a sua vontade, pois os demais elementos da pesquisa devem ser levados a sério. Na prática do seu trabalho, não é a fonte que fala por si sobre o fato, é o historiador que constrói e fala do fato a partir da análise da fonte. Como a propria origem da palavra história sugere, o conhecimento histórico é advindo da investigação: a mera fala sem o arcabouço científico não deve ditar algo sobre o objeto de estudo, principalmente tratando-se de assuntos complexos como o Regime Militar. De todo modo, é crucial entender que a compreensao da ação do homem no tempo não deve servir aos interesses dos poderosos para legitimar uma “verdade histórica absoluta”, e também não deve ser de forma irresponsável pensada como a história de “baixo para cima”. Embora haja diferentes perspectivas em História, a análise factual e honesta de um objeto deve estar acima das preferências e vontades de qualquer grupo.

Aliado ao que vivemos no Brasil, a Pós-modernidade ou Modernidade líquida nas palavras de Zygmunt Bauman, amplia a tendência ao relativismo. Hoje é comum que alguns setores queiram se pautar em demasia nas interpretações da realidade a partir do lugar de fala, aprofundando o dilema. Está sendo de praxe a configuração forçada de fatos históricos a serviço de princípios políticos, sendo rejeitada, então, a realidade inegável, em preferência aos discursos reducionistas e relativistas. Perante a dura realidade brasileira hoje, cabe aos profissionais que atuam sob o campo da História frequentemente revisitar os conceitos historiograficos afim de evitar mal uso e interpretações distorcidas. Ademais, enquanto se considerar a História como a ciência do passado apenas, desconsiderando o presente; enquanto os idólatras da História Magistra Vitae não acordarem e perceberem o presente que já apresenta os muitos erros do passado, os amigos do senso comum e inimigos do conhecimento factual construirão um futuro tenebroso de negacionismo histórico, e uma das “fatias” da responsabilidade será desgustada a contragosto por nós.

Referências e dicas culturais:

BLOCH, Marc Leopold Benjamin, Apologia da história, ou, O ofício de historiador. — Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2001.

2 comentários em “A História a serviço de quem? Breve análise sobre o dilema da cientificidade da História no Brasil.

  1. Muito bem meu caro! Bela iniciativa! Seu texto, muito bem escrito por sinal, nos enriquece de conhecimento prático e indispensável para o bom entendimento da história. Nos faz relembrar conceitos um pouco adormecidos pela avalanche de conteúdo na academia. Fico grato pela sua disposição em está nos concedendo esse espaço de interação e busca de conhecimento. Grande abraço, Alexandre!

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