Os debates sobre a vida e a obra do conhecido Karl Marx não se esgotam. É evidente que o filósofo alemão teve um impacto grandioso em seu tempo e que continua “presente” não apenas nas academias universitárias, mas em bons debates que versam sobre política, história e economia. Contudo, no contexto atual do Brasil, as narrativas que mencionam Marx, tanto no espectro político da esquerda como no espectro político da direita, apresentam sérias dificuldades no tratamento das principais ideias do famigerado pensador . Partindo do princípio de que Marx divide opiniões, e longe de querer encerrar as discussões sobre as diferentes visões acerca das ideias do filósofo alemão, busca-se abordar algumas de suas ideias tentando compreender a percepção de quem o ainda considera pertinente para o século XXI e de quem o acha maléfico para a sociedade aberta.

Sendo sintético, Marx é aclamado quase como deus por grupos mais a esquerda, tendo fama absoluta por aqueles que se indentificam com as questões sociais e rejeitado por outros de linha política direitista. Quem estaria correto? É possível empreender, a partir de uma leitura de Marx, o provável caminho para a superação do capitalismo e, consequentemente, a chegada à síntese( resultado final da dialética marxiana) que é o comunismo? Para quem tem apreço a essa ideia, há a defesa de que Marx teria delineado o caminho e apontado que a revolução do proletariado é fundamental, sendo antes necessário a materialidade dos dilemas intrínsecos às contradições do sistema capitalista – este que se desenvolveria ao ápice e entraria em colapso. Os defensores do fim do capitalismo salientam que Marx observou bem a realidade humana sob o método do materialismo histórico dialético nas críticas ao antagonismos de classe,-tão marcantes ao longo da história humana- e no emergir dos modos de produção que ascendiam e se colapsavam ao longo da história. Também apontam que o barbudo teria indicado, pormenorizadamente, o ordenamento dos fatos até o fim da história, isto é, os passos que seriam dados até se chegar ao estágio final da história humana que é o comunismo. Cabe destacar , ademais, que os defensores destas linhas de interpretação negam as principais experiências socialistas do século XX como sendo dissociáveis do socialismo real pensado por Marx.

Para os grupos que têm aversão a tudo o que Marx produziu, o barbudo e seu fiel amigo Engels seriam os grandes culpados pelos genocídios que marcaram o período Stalinista na URSS e na China de Mao Tsé-tung. O filósofo ainda seria o responsável pela difusão de ideias incisivas sobre revolução e de atos de rebeldia que minam ordens e princípios estabelecidas a milênios, além de ser péssimo exemplo moral e ético para os jovens. Outrossim, não bastasse o “problema Marx” para a sociedade aberta, conforme alguns desses grupos, o movimento pró revolução e anticapitalista teria ganho o reforço do Marxismo Cultural, que sob influências diretas de intelectuais marxistas como Antonio Gramsci e Herbert Marcuse, teria agravado o problema cultural do Brasil e intensificado narrativas históricas que favorecem a uma visão esquerdista. Portanto, ainda de acordo com tal percepção, Marx e seus seguidores marxistas representam o que há de pior no meio acadêmico, implicando em mazelas culturais para o Brasil.

Considerando um pouco as percepções dos que veneram e odeiam a Marx, chega-se ao momento de saber quais narrativas mais se aproximam de uma análise sadia e coerente. Sim, exatamente. Não se trata apenas de discorrer sob razões indiscutíveis, já que ambos os discursos, superficiais em suas gêneses, apresentam falhas. Um aspecto é certo: as duas falas apresentadas destoam da produção do velho Marx: ora o “santificam” demais, ora o estigmatizam em demasia.

Marx não é um anjo e está muito longe de sê-lo. Um dos grandes erros do filósofo reside na insistência no “fim da história”, uma visão um tanto historicista, teleológica e que acaba conduzindo para uma visão ilusionista da realidade. É fato que as experiências socialistas do século XX destoam do socialismo real do filósofo (é bem provável que Marx tivesse rejeitado a aproprição que alguns marxistas fizeram de suas ideias), mas bebem na ideia disseminada do próprio Marx que o fim da história é uma sociedade super igualitária habitada por humanos completos, onilaterais. Trocando em miúdos, mesmo entendendo as ideias socialistas do seu tempo como utópicas e se propondo a elencar “materialmente” a possibilidade de um socialismo real , Marx desconsiderou as características da natureza humana e caiu na utopia que tanto tentava fugir. Faltou ao velho Marx pensar um pouco como Hobbes. Afinal, “o homem é o lobo do homem”.

Se o intelectual alemão não é um anjo, é um grave erro considerá-lo um demônio. Marx viveu no contexto do capitalismo selvagem, desumano e brutal. Suas críticas às desigualdades escancaradas pela divisão da sociedade e do homem, bem como sua critica geral ao capitalismo, foram extremamente válidas e ainda ajudam na compreensão de que o mercado precisa de rédeas e nos limites necessários para a exploração humana. Tentar desmerecer a produção intelectual desse importante filósofo alemão é compactuar com a desonestidade intelectual, além de fechar os olhos para suas influências nas diversas áreas do conhecimento. Como bem apontou Raymund Aron: “nenhum historiador, nenhum economista, é verdade, pensaria exatamente como pensa, caso Marx não tivesse existido.” Ainda segundo Aron, após Marx, “o economista ganhou consciência da exploração e o historiador não se atreve mais a fechar os olhos às realidades humildes que dirigem a vida de milhões de pessoas.”

Como disse um grande mentor: “Não há leitura tão ruím que não seja possível a extração de algo positivo, e não há leitura tão boa aponto de não poder ser criticada e questionada”. Pegando emprestado termos propriamente ocidentais e cristãos, Karl Marx não foi nem anjo e nem demônio, foi um importante intelectual, que a frente do seu tempo, influenciou profundamente a produção do conhecimento, para o bem ou para o mal. Assim, se não podemos entender suas ideias como absolutas e inerrantes, também não podemos permitir que caiam no esquecimento. Amando ou odiando, lê-lo criticamente é sempre a melhor alternativa.

Referências e dicas culturais:

ARON, Raymond. O ópio dos intelectuais. São Paulo: Três Estrelas, 2016.

HOBSBAWM, Eric. Sobre história. São Paulo:Companhia das Letras, 1998

Um comentário em “Karl Marx: anjo ou demônio?

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